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2.5.06

A linguagem da cultura digital em “Kill Bill”

O cinema nunca parou de evoluir. Está cada vez mais incorporado a uma nova cultura, caracterizada pelo uso de uma linguagem híbrida, onde texto, imagem e som se fundem de uma maneira nunca realizada anteriormente. Nossa sociedade tem passado por um processo de evolução em relação ao uso que faz dos meios de comunicação. Hoje acompanhamos o surgimento freqüente de novas mídias, mais do que isso, vemos surgir uma interação entre diferentes meios, propiciada principalmente pelas mídias digitais. Essa interação entre os meios promove a fusão das linguagens próprias de cada um deles, fazendo nascer uma nova linguagem que caracteriza a cultura digital.

Assim, o cinema começa também a discutir sua própria linguagem. Este processo evolutivo traz novos elementos e possibilidades para o cinema. O filme de Quentin Tarantino, “Kill Bill” é uma bem sucedida experiência de hibridização de linguagens. É um produto da linguagem cinematográfica, mas que torna visíveis algumas características desta nova cultura digital, apesar de não utilizar um meio próprio dessa cultura. Em “Kill Bill” a linearidade do roteiro cinematográfico é discutida, mostrando que o espectador é capaz de compreender um filme não-linear. Em um filme onde tudo é previsível, a ruptura da linearidade torna-se um dos principais responsáveis pela expectativa e ansiedade gerada no espectador.

Filmes com continuação não são novidades no cinema, porém diferente da forma como o cinema tradicional costuma fazer, Tarantino dividiu o filme em duas partes que não são distintas, denominadas como “volume 1” e “volume 2”. A história iniciada na primeira parte tem seu desfecho apenas no segundo filme. Referência clara ao modelo presente nas novelas e seriados da televisão. Na verdade o que não falta são referências, principalmente aos seriados de TV e desenhos japoneses, dos mais antigos aos mais recentes. Todo o filme segue a linguagem das animações japonesas, repletas de lutas marciais, mescladas com cenas do western americano. Enquanto o “volume 1” tem uma grande passagem no Japão, o “volume 2” concentra-se no Texas, fazendo uma passagem rápida pela China e México. Mais do que isso, no “volume 1” cenas com atores reais são intercaladas por um longo trecho de desenho animado ao melhor estilo anime, que complementa o filme sem descaracterizá-lo. O desenho animado é incorporado ao filme de tal maneira que a transição entre as cenas reais e o desenho não causam um total estranhamento no espectador. Em “Kill Bill” tudo é referência. Nada é por acaso. A trilha sonora muitas vezes traz inusitados casamentos entre o contexto da cena e o contexto da música e novamente sem causar nenhum estranhamento (na maioria dos casos) ao espectador que em todo o momento fica envolvido com a trama.

Essa experiência de Tarantino tem seu clímax justamente nas últimas cenas do “volume 1”, quando diferentes interlocuções, de diferentes tempos cronológicos fundem-se, mesclando passagens e textos que quase se sobrepõem, buscando sempre uma harmonia, criada justamente para, ao invés de confundir, esclarecer todo o enredo do filme.

É provável que “Kill Bill” seja melhor compreendido por aqueles que vivem com mais intensidade as transformações geradas por essa nova cultura digital, capazes de interagir com diferentes mídias ao mesmo tempo. Muitas dessas pessoas são hábeis no domínio de jogos em três dimensões, onde o controle de direção inverte-se a cada movimento do personagem na tela, enquanto também recebem outros estímulos visuais e sonoros. São também aquelas que ouvem música eletrônica, formada pela fusão de fragmentos de outras músicas. Esse contexto permite uma leitura não comprometida com estilos e linguagens, onde, por exemplo, é possível ouvir bossa nova em versão tecno. Aliás, assim como o Dj faz uma colagem de vários gêneros musicas, Tarantino faz colagens de diversos estilos e linguagens da televisão e do cinema.

Por último, é importante dizer que o filme, por si só, não propõe nenhuma grande reflexão; é apenas produto dessa colagem de diferentes estilos, e deve ser assistido de forma descomprometida. Também não é o primeiro a realizar essas experiências, outros já o fizeram, provando mais uma vez que isso tudo é parte de um processo, uma evolução a caminho da cultura digital.


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Éric Eroi Messa é Professor da Faculdade de Comunicação - Publicidade e Propaganda - FACOM/FAAP e do MBA Profissional - Master em Tecnologia Educacional - CECUR/FAAP. É sócio-diretor da High Performance - Marketing Interativo. E-mail: eric.eroi@messa.com.br


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“A linguagem da Cultura Digital em Kill Bill”, Jornal Diário do Comércio, São Paulo: Diário do Comércio - ACSP, Cad. Cultura, pág.: 2, 21/05/2004.