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2.5.06

Google e a polêmica da privacidade

Parece que a Google, empresa que ficou famosa com seu portal de busca na internet, sabe muito bem como criar expectativa antes de lançar um novo produto no mercado, exemplo digno de um “case de marketing” sobre o lançamento bem sucedido de um novo produto.

No início de 2004 a Google começou a ampliar seus negócios lançando o ORKUT (www.orkut.com) , portal de social networking, ainda em versão beta, onde só é possível fazer parte através do convite de um usuário do portal. A estratégia deu certo. Criou expectativa, e muitos usuários da internet ficaram tão ansiosos para conhecer e utilizar o portal que chegaram a pagar até 10 dólares por um convite para acessar o Orkut, vendido por outros usuários através dos sites de leilão on-line como o e-bay.

Em 1º de abril a Google noticiou o lançamento de mais um produto, o Gmail (www.gmail.com), um serviço de e-mail gratuito que pretende oferecer 1 Gb de espaço enquanto outro serviços de e-mail gratuito oferecem apenas 1 ou 2 Mb. A notícia era tão surpreendente que se espalhou rapidamente, alguns chegaram até a questionar se não era apenas uma brincadeira de “1º de Abril” da Google. Não era. Alguns usuários foram convidados a participar do período de testes do sistema que além de oferecer um espaço grande para armazenamento das mensagens, possui um sistema inovador de rastreamento de mensagens, permitindo resgatar com facilidade todas as mensagens trocadas com uma outra pessoa, além de um sistema de busca das mensagens arquivadas de alto nível. Para ampliar o número de beta-testers, alguns usuários do Blogger (outra marca pertencente à Google – www.blogger.com) também foram convidados a criar uma conta no Gmail. Além disso, na última semana a Google começou a aplicar a mesma estratégia utilizada no Orkut: os atuais usuários do Gmail também podem convidar outros para participarem da fase de testes. Porém cada usuário do Gmail pode convidar apenas dois novos usuários. Essa limitação está gerando um alvoroço ainda maior daquele causado no lançamento do Orkut. Em menos de um mês após a divulgação do novo serviço, os convites já começaram a ser vendidos por usuário do Gmail nos leilões on-line por até 100 dólares (está à venda inclusive o endereço bin.laden@gmail.com pelo lance mínimo de 125 dólares). Vale lembrar aqui que a SpyMac (www.spymac.com) aproveitou a carona e também lançou um serviço de e-mail gratuito com capacidade de 1Gb e cadastro livre, ou seja, não é necessário nenhum convite para criar sua conta.

Mas a polêmica não pára por aí. Antes mesmo do lançamento definitivo do Gmail a Google já está sofrendo diferentes processos, um deles por conta de uma das políticas do Gmail onde o serviço afirma que todas as mensagens circuladas no sistema são armazenadas por tempo indeterminado Essa condição cria uma brecha para que essas mensagens sejam resgatas futuramente, mesmo aquelas que o usuário havia apagado da sua pasta. A Google também esta sendo processada por “invasão de privacidade” por causa do seu sistema exclusivo de filtragem publicitária. Assim como outros serviços de e-mail gratuito, a Google pretende incorporar nas mensagens de e-mail propagandas de seus anunciantes, porém tais propagandas só seriam vinculadas a e-mails que possuíssem conteúdo relacionado ao produto do anunciante. Ou seja, o sistema irá vasculhar todo o conteúdo das mensagens circuladas dentro do Gmail em busca de palavras-chave relacionadas aos produtos de seus anunciantes, caso encontre uma palavra-chave dentro do corpo da mensagem então o anúncio é inserido. Com isso a Google pretende agradar tanto seus usuários quanto seus anunciantes, pois desta forma os anúncios não seriam distribuídos aleatoriamente, mas apenas àqueles que possivelmente teriam interesse no produto, já que o conteúdo da mensagem possui contexto semelhante.

Com isso a Google abre uma discussão semelhante àquela que se iniciou alguns anos atrás, quando os primeiros cookies começaram a ser usados, instalando-se automaticamente na máquina do visitante de um determinado site. Os cookies são capazes de armazenar informações pessoais de um visitante e remetê-las ao site, permitindo, por exemplo, identificar o usuário em suas visitas posteriores. Naquela época toda a polêmica foi resolvida com a inclusão nos navegadores de um item que possibilitava ao usuário barrar a entrada de cookies de sites não-confiáveis.

A discussão sobre privacidade na internet nunca terminou, porém o surgimento do MP3 e dos serviços P2P (peer-to-peer) levantaram uma outra discussão também antiga: a questão dos direitos autorais, que ficou em alta até pouco tempo. O processo contra a Google ajudou a trazer à tona novamente a discussão sobre a privacidade na internet. Muitos defendem a opinião de que é preferível ter suas mensagens vasculhadas por um sistema automatizado do que receber publicidade não segmentada, muitas vezes sem qualquer relação com os interesses do usuário.

O fato é que a internet não é um veículo de massa como a televisão, e portanto não pode ser utilizada pela publicidade da mesma maneira. Esse é o mesmo argumento daqueles que lutam contra o spam. A publicidade parece que ainda não descobriu como atuar dentro da internet e a Google resolveu apostar no seu palpite.

A estratégia da Google parece um passo inicial para o sonho daqueles que defendem a cultura digital e lutam contra o excesso de informação provocada pela era das novas tecnologias de comunicação: a identificação dinâmica do perfil de um usuário. Num futuro próximo qualquer pessoa poderá acordar pela manhã e tomar seu café enquanto lê seu “jornal eletrônico”, feito de um material flexível que recebe imagens através da rede sem fio. Todas as notícias enviadas são atualizadas em tempo real, e selecionadas de acordo com o perfil do leitor, assim aqueles que não se interessam por esporte não receberão o caderno de esportes em seu “jornal eletrônico”, a não ser que o próprio usuário solicite, e por se tratar de um perfil com atualização dinâmica, caso o sistema identifique que determinado usuário começou a solicitar notícias de esporte com certa freqüência, o próprio sistema passará a enviar tais notícias automaticamente.

Hoje já existem outras pequenas iniciativas nessa direção. Rogério da Costa, autor do livro Cultura Digital e professor da PUC-SP costuma usar um bom exemplo: O jornal americano The New York Times colocou na internet o portal Abuzz (www.abuzz.com); trata-se de uma comunidade virtual para troca de informações, ou seja, ao postar uma dúvida dentro do portal, outros usuários podem receber e respondê-la a você. Porém não são todos os participantes da comunidade que recebem a sua dúvida. O sistema Abuzz monta um perfil dinâmico dos usuário a partir das dúvidas que cada usuário responde, assim, uma dúvida enviada ao sistema só é retransmitida para aqueles usuários que já responderam dúvidas semelhantes anteriormente. Ou seja, é mais um sistema que rastreia os passos do usuário buscando identificar seu perfil.

A Google pretende algo semelhante, pois ao rastrear o conteúdo das mensagens é capaz de identificar o perfil de cada usuário e como a empresa propõe, poderá enviar somente mensagens publicitárias potencialmente interessantes para aquele usuário. Porém fica óbvio também que esse perfil, atualizado de forma dinâmica, é uma informação extremamente valiosa que pode ser utilizada para muitos outros fins, inclusive para o envio de notícias pré-selecionadas, de acordo com os interesses do usuário/leitor, durante todos os dias pela manhã.





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Éric Eroi Messa é Professor da Faculdade de Comunicação - Publicidade e Propaganda - FACOM/FAAP e do MBA Profissional - Master em Tecnologia Educacional - CECUR/FAAP. É sócio-diretor da High Performance - Marketing Interativo. E-mail: eric.eroi@messa.com.br


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“Google e a polêmica da privacidade”, Jornal Diário do Comércio, São Paulo: Diário do Comércio - ACSP, Cad. Informática, pág.: 3, 11/05/2004.